Nossa História

Histórico da suplementação mineral de bovinos de corte no Brasil (*)

(*) Marcos Sampaio Baruselli, Zootecnista da Tortuga, Gerente nacional de bovinos de corte

Segundo ARISTÓTOLES, 384 – 322 A.C., todos os seres viventes nutrem-se de substancias idênticas aquelas que compõem seu próprio organismo. Os elementos minerais essenciais aos organismos vivos representam cerca de cinco por cento (5 %) do peso vivo de um animal adulto (MacDowell, 1999). Desta forma, um boi de 500 kg tem aproximadamente 25 kg do seu peso constituído por elementos minerais.

A classificação dos minerais, segundo o critério quantitativo pode ser dividida em macroelemento, microelemento e elementos traços, de acordo com Julio Cezar Teixeira, UFLA, 2001. Deve-se ressaltar que esta classificação é meramente quantitativa, ou seja, refere-se apenas a concentração do mineral no organismo, desconsiderando, portanto, neste caso, qualquer outro tipo de classificação.

Tabela 1 – Classificação dos minerais segundo o critério quantitativo:

ELEMENTO CONCENTRAÇÃO (% PV) CLASSIFICAÇÃO
Ca
P, K,Na, S, Cl
Mg
1,9
0,1 – 0,9
0,01 – 0,09
MACROELEMENTO
MACROELEMENTO
MACROELEMENTO
Fe, Zn, F, Cu, Mo
Ba, Si, Cs, I, Mn, Al, Pb
Cd, B, Rb
0,001 – 0,009
0,0001 – 0,0009
0,00001 – 0,00009
MICROELEMENTO
MICROELEMENTO
MICROELEMENTO
Se, Co, V, Cr, As, Ni
Li, Hg, U, Sb, Sc
0,000001 – 0,000009 ELEMENTOS TRAÇOS
Fonte: Julio Cezar Teixeira, UFLA, 2001

Segundo MacDowell, 1999, e de acordo com Teixeira, 2001, os elementos minerais essenciais denominados de macro – minerais, são formados por sete (7) elementos, sendo os seguintes:

Cálcio (Ca); Fósforo (P); Potássio (K): Magnésio (Mg); Sódio (Na); Enxofre (S) e Cloro (Cl).

Os elementos minerais essenciais classificados como micro minerais, são formados por dezoito (18) minerais, de acordo com MacDowell, 1999. Os micro – minerais essenciais são os seguintes:

Arsênio; Boro; Cádmio; Cromo; Cobalto; Cobre; Flúor; Iodo; Ferro; Lítio; Manganês; Molibdênio; Níquel; Selênio; Sílica; Estanho; Vanádio; Zinco.

Portanto, atualmente, vinte e cinco (25) elementos minerais são reconhecidos como essenciais à dieta dos animais domésticos. Vale ressaltar que alguns destes elementos foram reconhecidos recentemente, como é o caso do Cromo, tido como essencial na ultima revisão do National Research Council – NRC, bovinos de corte, em 1996. Outros minerais, antes da década de 80, como é o caso do Selênio, eram tidos somente como elementos minerais tóxicos.


O conceito de essencialidade refere – se ao fato de que sem o elemento mineral a vida não é possível se estabelecer e perdurar (MALETTO, Torino, Itália, 1992). Na carência ou deficiência de um dado elemento mineral essencial ocorre uma serie de fenômenos negativos que invariavelmente leva a um desequilíbrio homeostático, sendo, resumidamente, obserbvados os seguintes fenômenos: 1. Perda de desempenho produtivo do animal; 2. Ocorrências de enfermidades de origem mineral; 3. Morte do animal. A classificação dos minerais também pode ser feita com base em suas funções, como as biológicas que determinam a sua essencialidade. Teixeira, UFLA, 2001, classifica os elementos minerais como sendo: essenciais, provavelmente essenciais e elementos de função incerta, conforme mostra a tabela 2.

Tabela 2 – Classificação dos elementos minerais segundo sua função biológica:

ELEMENTOS ESSENCIAIS PROVAVELMENTE ESSENCIAIS ELEMENTOS DE FUNÇÃO INCERTA
Ca
P
Na
S
K
Mg
Fe
Zn
Mo
Se
I
Co
Cr
Fl
Si
Ti
Vn
As
Br
Es
Ni
Li
Al
HG
U
Sb
Ga
Ge
Be
Rh
Th
Sn
Fonte: Julio Cezar Teixeira, UFLA, 2001

Existem relatos históricos que indicam que o fornecimento de cloreto de sódio aos animais domésticos data dos tempos de Plutarco – 40 a 120 anos A.C. Por mais incrível que pareça, até hoje no Brasil há quem não forneça nenhum tipo de suplemento aos rebanhos mantidos a pasto, expondo-os às carências e enfermidades nutricionais. Há quem forneça apenas sal branco ou cloreto de sódio aos rebanhos, expondo-os não somente a baixos índices de produtividade, mas também às enfermidades de origem nutricional.

Analisando o histórico da suplementação dos rebanhos, nota-se que Até por volta de 1900 acreditava-se que a maioria dos elementos minerais estava em excesso na dieta dos animais domésticos, razão pela qual pouca atenção se dava a pratica da suplementação mineral. A relação entre osteofagia, isto é, o habito do bovino em ingerir ossos, e a deficiência de Fósforo nos bovinos sob pastejo em áreas de baixa fertilidade, foi esclarecida somente por volta da década de 20.


As enfermidades de origem mineral começaram a ser identificadas mais detalhadamente por volta dos anos 50, quando aparelhos e laboratórios de analises químicas começaram a se desenvolver mais intensamente e permitiram maiores e melhores estudos do metabolismo dos minerais. A historia da utilização dos suplementos minerais no Brasil pode ser dividida em seis fases distintas, onde:

1ª fase (década de 50): Por volta dos anos 50, ou até mesmo antes desta época, a pratica da suplementação mineral como a vemos hoje ainda não havia sido difundida no Brasil. Neste período, os rebanhos, quando suplementados, eram suplementados apenas com sal branco grosseiramente moído. O sal branco era disponibilizado por meio de instalações muito precárias, como troncos de arvores ou pneus velhos cortados ao meio. Os rebanhos criados a pasto nesta época, dispunham, portanto, quando muito, apensa de cloreto de sódio grosso.

2ª fase (década de 60): Neste período alguns fazendeiros utilizavam cinzas de arvores queimadas misturadas ao cloreto de sódio visando suplementar outros elementos minerais alem do sódio e do cloro. Esta pratica foi muito comum no período de abertura de novas áreas pelo interior do Brasil onde florestas eram queimadas para dar origem às pastagens e as cinzas resultantes das queimadas eram então misturadas ao sal branco e disponibilizada aos animais. Acreditava-se que, desta forma, tornava-se possível suplementar aos animais os minerais contidos nas cinzas. Ledo engano. Foi também nesta época que se deu o inicio ao uso de farinha de osso como fonte de cálcio e fósforo aos rebanhos mantidos a pasto. A farinha de ossos, tanto a farinha de ossos autoclavada que atualmente tem seu uso proibido na alimentação animal por questões sanitárias, como a farinha de ossos calcinada, eram misturadas ao sal branco ou simplesmente deixadas ao lado do sal branco nos cochos de minerais como fonte de Cálcio e Fósforo.

3ª fase (década de 70): Na década de 70 a suplementação mineral no Brasil, devido a grande ocorrência de enfermidades nutricionais de origem mineral que afetavam rebanhos inteiros, como cara inchada, bócio, magrinha, perversão do apetite, mal da vaca caída, entre outras, passou a ser considerada pelos pecuaristas como uma eficiente pratica de manejo, sendo capaz de sanar e prevenir diversas enfermidades de origem mineral. Nesta época, foi difundido o uso da suplementação mineral correta composta basicamente de cloreto de sódio, fosfato bicálcico como fonte de cálcio e fósforo de elevado valor biológico mais micro- minerais. Os suplementos minerais assim formulados eram então disponibilizados em cochos estrategicamente posicionados nas pastagens visando o consumo ad libitun por parte dos animais.

4ª fase (década de 80):
Na década de 80 deu-se inicio uma nova visão da suplementação mineral que não abordava apenas o aspecto clinico da mesma, mas também o aspecto relacionado à produtividade zootécnica dos rebanhos corretamente suplementados. Nesta época difundiu-se a relação custo / beneficio da suplementação mineral e vários aspectos zootécnicos e econômicos, como aumento do ganho de peso e da produção de bezerros. Foi também nos anos 80 que teve inicio a suplementação mineral – protéica, adotada principalmente no período da seca nas condições do Brasil central com o objetivo de suplementar não apenas minerais, mas também proteínas na forma de nitrogênio não protéico e fontes protéicas de origem vegetal.


5ª fase (década de 90): Nos anos 90, a suplementação mineral de bovinos de corte ganhou uma nova face, evoluiu novamente e passou a ser utilizada de acordo com a categoria animal. Nesta época, programas nutricionais estratégicos passaram a ser implantados nas fazendas visando a otimização da suplementação mineral. Foi introduzido o conceito de suplementar de acordo com as necessidades especificas de minerais de cada fase da vida do animal. Desta forma surgiram suplementos minerais específicos para bezerros, suplementos para recria, suplementos para a engorda, entre outros. A segmentação da suplementação mineral com o objetivo de obter maiores respostas zootécnicas e uma melhor relação custo / beneficio se intensificou a partir dos anos 90.

6ª fase (década de 00): esta sem duvida nenhuma é a década que está focada na qualidade dos suplementos minerais. A partir de agora muita atenção será dada ao controle de qualidade de produção, embalagem e distribuição dos suplementos minerais. Fatores como certificação e garantia dos produtos passam a ter significativa importância para toda a cadeia da carne. Sistemas de produção de suplementos certificados e aprovados pelo MAPA – Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, como as Boas Praticas de Fabricação – BPF que garantem a produção de suplementos seguros e de qualidade, sem duvida vão marcar os novos tempos da suplementação mineral no Brasil.

Por fim, a pratica da suplementação mineral tende a evoluir nas próximas décadas com base num rigoroso controle de qualidade das matérias primas e também com base nas Boas Praticas de Fabricação – BPF visando, desta forma, garantir uma produção animal mais eficiente, tanto do ponto de vista zootécnico como do ponto de vista da qualidade, da garantia e da certificação da carne bovina produzida em nosso país.